Para ti meu marido:
Esta carta que te escrevo meu querido marido, é com as últimas forças que me restam depois da nossa última “discussão”. Eu lembro-me quando nos conhecemos, o homem que eras. Limpo, inteligente, educado e atencioso. Um homem como poucos havia e que os meus olhos cegos viam.

Estivemos juntos durante cinco anos. Em todos eles eras o chefe e eu não passava de uma escrava que tinha de obedecer.
Ontem à noite bateste-me como nunca tinhas batido. Na barriga, na cara, por todo o corpo e desta vez ganhei forças para denunciar tudo. Tudo o que aconteceu durante este tempo todo.
Quando caminhava para o hospital, nem sentia o meu corpo e parecia estar a andar sem as próprias pernas.
Desde a chegada do nosso último filho que tudo piorou. Incomodas-te até com os gritos dele à noite. Disso ninguém pode ter dúvida.
Sempre pensei nos nossos filhos e todas as vezes durante este tempo que me calei foi por eles. Por serem novos e porque todas as crianças precisam de um pai. Mas também precisam de uma mãe, precisam de mim e da maneira que as coisas já estavam, qualquer dia acabaria por já não estar cá para poder olhar por eles.
E só quero que saibas que, na realidade, nunca me atingiste. Porque a minha alma não sente dor da cobardia e por isso nunca me conseguiste verdadeiramente tocar.
Atentamente
A tua mulher que batias e que não se defendia


